Homem que forjava 'vaquinhas' usando I.A. em imagens de crianças com câncer é preso em Dourados

DOURADOS NEWS


Postagens patrocinadas utilizando nome de Sophia levaram à investigação que desmantelou um grupo criminoso - Crédito: Divulgação / Defron

Um homem, de 26 anos, foi preso nesta terça-feira, dia 14, em Dourados, acusado de integrar o núcleo tecnológico de um grupo criminoso, acusado de criar falsas campanhas de doação pela internet, utilizando imagens de crianças com câncer. 

O mandado de prisão preventiva contra o suspeito foi cumprido pela Defron (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira), em apoio a DRCPE (Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos) da Polícia Civil do Rio Grande do Sul que deflagrou a Operação Sophia.

Ao todo, foram expedidos 19 mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Pernambuco, em endereços vinculados aos investigados e às estruturas utilizadas para operacionalização dos golpes.

O MECANISMO DO GOLPE

A fraude investigada consistia na criação de falsas campanhas de arrecadação de valores, com utilização indevida de imagens, vídeos e histórias reais de pessoas em situação de vulnerabilidade, especialmente crianças em tratamento de doenças graves.

No caso que deu origem à investigação, os criminosos utilizaram indevidamente imagens e vídeos de uma criança em tratamento contra câncer, simulando uma campanha de arrecadação para custear seu tratamento. A família da criança não autorizou a campanha e não recebeu os valores arrecadados.

O golpe era estruturado em várias etapas. Uma dessas usava indevidamente imagens reais. Os investigados se apropriavam de fotos e vídeos de crianças doentes, familiares e campanhas legítimas, explorando a comoção pública para induzir as vítimas a erro.

Também faziam anúncios patrocinados, impulsionados em redes sociais, por meio de páginas como “Clube de Doadores”, “Doadores com Amor” e “Unidos pelo Amor”, aumentando o alcance das publicações e atingindo milhares de pessoas.

Depois disso, redirecionavam os doadores para sites falsos. Ao clicarem nos anúncios, as vítimas eram encaminhadas para páginas que imitavam plataformas legítimas de doação, especialmente com aparência semelhante a uma famosa plataforma de ‘vaquinha’ digital.

Nesses portais, as vítimas escolhiam valores da suposta doação e recebiam um QR Code Pix ou código Pix “copia e cola”. O dinheiro, no entanto, era direcionado para contas bancárias, empresas de fachada e gateways de pagamento controlados ou utilizados pelo grupo criminoso.

Para dificultar o rastreamento, o grupo utilizava intermediadoras de pagamento, empresas de fachada, contas de terceiros, domínios registrados em provedores estrangeiros, ferramentas de proxy, mecanismos de camuflagem de sites e contas de redes sociais previamente preparadas. Tudo para tentar ocultar quem eram os beneficiários do esquema.

ESTRUTURA SOFISTICADA

A investigação revelou que não se tratava de um golpe isolado, mas de uma estrutura criminosa organizada, com divisão de tarefas entre seus integrantes, e uso de estratégias sofisticadas focadas no uso da tecnologia.

O grupo contava com investigados responsáveis pela criação e hospedagem de sites falsos; registro de domínios e configuração de servidores; implementação de páginas de pagamento e QR Codes Pix; produção de vídeos, áudios e peças publicitárias fraudulentas; utilização de ferramentas de inteligência artificial, deepfake e clonagem de voz; compra, fornecimento e administração de contas em redes sociais; impulsionamento de anúncios fraudulentos; utilização de proxies e ferramentas de camuflagem para dificultar a identificação; recebimento, pulverização e lavagem dos valores obtidos com os golpes.

Durante a investigação, foram identificadas ferramentas utilizadas para manipulação de áudio e vídeo, sincronização labial, criação de avatares, clonagem de voz, remoção de metadados e camuflagem de páginas fraudulentas.

Também foram localizados indícios de pesquisas por novas vítimas em situação de vulnerabilidade, especialmente crianças com doenças graves, demonstrando a continuidade e a profissionalização da atividade criminosa.

A INVESTIGAÇÃO

A investigação teve início após a mãe de uma criança em tratamento contra câncer comunicar à Polícia Civil que imagens e vídeos de sua filha estavam sendo utilizados em anúncios pagos nas redes sociais para arrecadar falsas doações.

A partir da notícia-crime, a DRCPE/DERCC iniciou diligências para identificar os responsáveis pela criação e manutenção da estrutura digital. A análise dos dados permitiu mapear o caminho dos valores e identificar diversos investigados com funções específicas no esquema criminoso.

A investigação identificou, entre outros elementos, que apenas em relação à falsa campanha que deu origem ao inquérito foram rastreados ao menos R$ 294,5 mil entre chave Pix e gateways de pagamento.

Além disso, a apuração revelou movimentações financeiras muito superiores em contas e empresas utilizadas pela organização, com destaque para uma empresa apontada como hub financeiro do grupo, que teria movimentado mais de R$ 1,7 milhão no período investigado.

QUEM É SOPHIA?

A ação recebeu o nome de Operação Sophia em referência à criança que teve sua imagem utilizada indevidamente pelos investigados em falsas campanhas de doação. O nome representa o ponto de partida da investigação e simboliza a exploração criminosa da dor, da vulnerabilidade e da solidariedade pública, utilizadas pelo grupo para dar aparência beneficente às fraudes e induzir milhares de pessoas a realizar doações que, na verdade, eram desviadas para a organização criminosa.

Durante a operação, estão sendo cumpridas ordens judiciais de prisão preventiva e busca e apreensão em endereços residenciais e empresariais vinculados aos investigados, com o objetivo de apreender aparelhos celulares, computadores, documentos, mídias digitais, dispositivos de armazenamento, cartões bancários, contratos sociais, registros de acesso, credenciais, arquivos de sites, contas em plataformas digitais e demais elementos de prova.

A Polícia Civil ainda fez um alerta à população para que tenha cautela antes de realizar doações online. É recomendável verificar se a campanha é oficial, confirmar os dados diretamente com a família ou instituição responsável, desconfiar de páginas impulsionadas com forte apelo emocional e conferir se o destinatário do Pix corresponde efetivamente à pessoa ou entidade beneficiária.



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