Furtos em residências sobem 13% em um ano e expõem questão de segurança e saúde pública

Crime mais comum na cidade atinge todas as regiões, tem forte relação com drogas e desafia forças de segurança e moradores

MIDIA MAX OSVALDO SATO


Imagens de câmera de segurança mostram invasão ao Damha III no Réveillon. (Foto: Reprodução)

Nem mesmo um condomínio de luxo está imune. O furto registrado no início deste ano no Residencial Damha III, em Campo Grande, reforça a percepção — cada vez mais comum — de que ninguém está totalmente protegido contra esse tipo de crime. O caso ajuda a ilustrar um cenário mais amplo, em que o furto residencial se consolida como o delito mais frequente na Capital, com registros em todas as regiões e diferentes perfis de vítimas.

Segundo a Sejusp (Secretaria de Segurança Pública de MS), em Campo Grande, os roubos em residências caíram de 97 casos em 2024 para 89 em 2025, uma redução de 8,2%. Já os furtos residenciais seguiram caminho oposto: subiram 13,1%, passando de 3.459 para 3.913 ocorrências no mesmo período. Ou seja, há menos crimes com violência ou grave ameaça, mas mais invasões silenciosas a imóveis.

No âmbito estadual, os dados mostram estabilidade. Os furtos em residências em Mato Grosso do Sul tiveram leve queda de 0,1%, passando de 7.570 para 7.565 registros. Ainda assim, o volume permanece alto e indica que o problema segue estrutural, especialmente nos grandes centros urbanos.

A maioria dos furtos ocorre durante o dia, quando as casas ficam vazias, uma vez que os moradores estão no trabalho. O crime, em geral, não envolve confronto direto. O objetivo é entrar, pegar o que for possível e sair rapidamente, antes que alguém perceba a movimentação.

Há dois perfis bem definidos, sendo, de um lado, furtos de pequeno porte, que representam a maior parte das ocorrências. Nesses casos, os criminosos levam o que conseguem carregar: bicicletas, celulares, notebooks, roupas, joias e pequenos eletrodomésticos. Do outro, estão os furtos de grande valor, normalmente cometidos por quadrilhas especializadas, com planejamento, divisão de tarefas e foco em bens de alto valor.

Furto, drogas e saúde pública
Para entender melhor o problema, a reportagem do Jornal Midiamax entrevistou o delegado Jackson Vilela, da Derf (Delegacia Especializada de Roubos e Furtos), a qual atua especificamente na repressão aos crimes de furto, roubo e extorsão.

“Nossa principal função é atuar nos crimes que já aconteceram, buscando esclarecer a autoria e responsabilizar criminalmente os envolvidos. Esse é um trabalho repressivo, porque o crime já ocorreu, mas que também tem um efeito preventivo, pois, ao prender esses indivíduos, evitamos que voltem a delinquir por um período”, explicou o delegado sobre a atuação da Derf.

Segundo o delegado, a maioria dos furtos residenciais está ligada ao uso de entorpecentes. Usuários de drogas agem por oportunidade, circulam pelos bairros observando sinais de vulnerabilidade e invadem imóveis sem grande planejamento. Muitas vezes, o crime ocorre mesmo sem a certeza de que a casa está vazia, o que aumenta o risco de situações mais graves.

“Muitos furtos são cometidos por usuários de drogas, que agem de forma oportunista. Às vezes, o indivíduo passa em frente a uma casa, percebe que está vazia, ou nem chega a verificar isso e acaba invadindo o imóvel, muitas vezes sob efeito de drogas. Esse tipo de criminoso é perigoso justamente por ser imprevisível. Se ele encontra o morador, a situação pode evoluir para algo mais grave”, disse o delegado Vilela.

Esse contexto faz com que o furto deixe de ser apenas uma questão policial e passe também pelo campo da saúde pública. A dependência química impulsiona a reincidência, dificulta a ressocialização e mantém um ciclo contínuo de pequenos delitos, que sobrecarrega o sistema de segurança.

Delegado Jackson Vale, da Derf. (Foto: Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

Penas brandas e reincidência
Outro fator apontado pelas autoridades é a punição considerada branda. O furto simples prevê pena de um a quatro anos de reclusão. Já o furto qualificado, comum em residências, por envolver arrombamento ou escalada, tem pena de dois a oito anos. Na prática, porém, as condenações costumam ficar no mínimo legal, muitas vezes em regime aberto.

“Temos uma pena considerada branda para o crime de furto. O furto simples tem pena prevista de 1 a 4 anos de reclusão, e o furto qualificado, que é comum nos casos residenciais, envolvendo arrombamento ou escalada, tem pena de 2 a 8 anos. Porém, na prática, com os benefícios legais e a atuação do Judiciário, o criminoso acaba recebendo a pena mínima”, explicou Vilela.

Isso faz com que muitos autores não permaneçam presos por muito tempo, favorecendo a reincidência. Em casos de pequeno valor e réus não reincidentes, há ainda o chamado furto privilegiado, que pode resultar em penas alternativas. Para a polícia, esse cenário gera retrabalho constante e pouco efeito dissuasório.

O que o morador pode fazer para se proteger
Diante desse quadro, a prevenção passa, em grande parte, pelo próprio morador. Câmeras de segurança têm papel central, pois ajudam na investigação, facilitam a identificação dos autores e inibem, ao menos em parte, a ação criminosa. Em muitos casos, a ausência de imagens inviabiliza o avanço das apurações.

“Nós observamos, no dia a dia da investigação, que as câmeras de segurança ajudam muito. Elas não impedem totalmente o crime, mas inibem e, principalmente, auxiliam na identificação e prisão dos autores. Hoje, ter câmera de segurança é algo essencial”, destacou Vilela.

Segundo o delegado, outras medidas também são importantes e devem ser adotadas conforme o poder aquisitivo de cada família. Trancas reforçadas, fechaduras de qualidade, concertinas, cercas elétricas, alarmes e portões mais resistentes dificultam a entrada e fazem o criminoso desistir ou procurar um alvo mais fácil.

Evitar deixar objetos visíveis, reduzir sinais de ausência prolongada e manter atenção ao entorno também são ações que ajudam. O criminoso tende a escolher o imóvel mais vulnerável. Em um cenário de furto residencial crescente, pequenas ações podem fazer diferença e reduzir o risco de você se tornar a próxima vítima.

 



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